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Governar com propósito implica considerar os dados e priorizar a juventude

Num contexto cada vez mais complexo e digitalizado, a juventude representa não só o futuro, mas o presente de qualquer nação. Em Angola, os desafios que afectam os jovens, desde o desemprego, a falta de formação técnica, ao acesso limitado a políticas de inclusão, exigem decisões rápidas, eficazes e fundamentadas. No entanto, quando se tomam decisões públicas sem o suporte de dados fiáveis, relevantes e actualizados, o Estado corre o risco de agravar ainda mais as desigualdades e perpetuar o ciclo de exclusão. Como afirmam Janssen et al. (2012), “os dados são o novo petróleo das administrações públicas”. Ignorar esta premissa é, em última instância, abandonar toda uma geração à margem do desenvolvimento.

Num contexto marcado por profundas desigualdades sociais, económicas e educacionais, a juventude angolana representa simultaneamente um dos maiores desafios e das maiores oportunidades para o desenvolvimento do país. A formulação de políticas públicas para este segmento não pode mais basear-se em suposições ou abordagens genéricas, mas sim na análise profunda e estratégica de dados reais e actualizados. A inteligência baseada em dados constitui hoje um recurso indispensável para a criação de soluções assertivas, inclusivas e sustentáveis.

1. O Fracasso do Censo e o Vazio de Informações Fiáveis

O último Censo Geral da População e Habitação de 2024, realizado em Angola, enfrentou uma série de dificuldades operacionais e técnicas que colocam em causa a fiabilidade dos seus resultados. Segundo especialistas, a ausência de dados precisos sobre a distribuição geográfica, etária e socioeconómica da juventude compromete a capacidade do Estado de desenhar políticas públicas eficazes. Como afirma Castells (1999), “a sociedade informacional baseia-se na capacidade de gerar, processar e aplicar informação com base no conhecimento”. Sem dados credíveis, o planeamento torna-se um exercício de adivinhação.

2. O Potencial dos Dados Digitais para a Juventude

Num cenário em que os dados censitários são escassos ou inconsistentes, torna-se urgente recorrer a novas fontes de informação, sobretudo os dados provenientes da internet e das redes sociais. Em Angola, a juventude está cada vez mais activa nas plataformas digitais, gerando diariamente volumes significativos de dados que revelam as suas opiniões, aspirações, frustrações e comportamentos.

A análise de Big Data e a mineração de dados em redes sociais podem revelar, por exemplo:

Os temas mais discutidos pelos jovens em diferentes províncias;

As principais reivindicações sociais, como desemprego, falta de oportunidades, educação deficiente ou segurança;

As iniciativas juvenis mais promissoras e inovadoras “empreendedorismo” que merecem apoio;

As zonas urbanas e rurais com maior vulnerabilidade juvenil.

Segundo Kitchin (2014), a análise de dados em tempo real permite que os governos adoptem abordagens mais reactivas e inteligentes, baseadas na dinâmica social concreta. Ou seja, os dados transformam-se em inteligência para a acção.

3. Exemplos Internacionais de Boas Práticas

Diversos países têm utilizado dados digitais e estatísticos para melhorar as políticas públicas voltadas à juventude:

Brasil: O programa Juventude Viva foi criado com base em dados sobre violência juvenil, mapeando os territórios mais vulneráveis e direccionando acções específicas. Através da análise integrada de dados do SUS, do Ministério da Justiça e das Secretarias Estaduais, conseguiram desenvolver políticas territoriais mais eficazes.

Canadá: O Youth Policy Toolbox, desenvolvido em parceria com universidades e think tanks, permite a recolha contínua de dados sobre os desafios enfrentados pelos jovens, como saúde mental, habitação e acesso ao emprego. Com esta base, o governo lança intervenções direccionadas e avaliáveis.

Quénia: Utiliza plataformas móveis e redes sociais para consultar a juventude em tempo real. Com base nas contribuições espontâneas dos jovens, redesenhou o plano nacional de formação técnico-profissional para torná-lo mais aderente às expectativas do mercado de trabalho.

Estónia: Tornou-se referência mundial na governação digital. O registo nacional de juventude permite rastrear desde a matrícula escolar até à primeira oportunidade de emprego, possibilitando políticas públicas totalmente baseadas em dados integrados.

4. Caminhos Possíveis para Angola

Para que Angola avance no mesmo sentido, é necessário:

1. Adoptar uma cultura de dados na governação, investindo na capacitação de gestores públicos e técnicos em análise de dados.

2. Integrar fontes alternativas de dados (como redes sociais, pesquisas online, plataformas digitais) às bases tradicionais, ampliando o espectro informacional.

3. Estabelecer Observatórios Nacionais da Juventude, com presença em todas as províncias, que coleccionem, tratem e disseminem dados sobre juventude.

4. Utilizar tecnologias de inteligência artificial e análise preditiva, que permitem simular cenários e antecipar tendências.

5. Promover a participação juvenil por meio de consultas digitais e audiências públicas interactivas.

Como referem Margetts, John, Hale e Yasseri (2017), os dados digitais não substituem o contacto directo com a população, mas oferecem um poderoso complemento para políticas baseadas em evidência.

5. Conclusão: Decidir com Dados é Governar com Justiça para a Juventude

Finalmente, é importante referir a juventude angolana, é uma força transformadora que clama por oportunidades, reconhecimento e participação efectiva. Formar políticas públicas assertivas para este grupo exige mais do que vontade política: exige informação de qualidade, fiável, actualizada e acessível. Ao apostar numa governação orientada por dados, Angola não só honra o compromisso constitucional de garantir direitos fundamentais, como também prepara-se para construir um futuro mais justo, próspero e democrático.

Portanto, a construção de políticas públicas eficazes para a juventude angolana exige um compromisso político sério com a governação baseada em evidências. Ignorar os dados, sejam estatísticos, digitais ou provenientes das redes sociais, é perpetuar decisões cegas que não respondem às reais necessidades dos jovens. O fracasso do último Censo da População e Habitação, por exemplo, compromete a leitura fiel do país e mina a capacidade do Estado de actuar com precisão.

Experiências internacionais, como as políticas de juventude baseadas em big data na Estónia ou os programas de inclusão social juvenil nos Estados Unidos, guiados por inteligência artificial, mostram que investir em dados é investir em soluções. Angola deve seguir esse caminho, fortalecendo os sistemas de recolha, tratamento e análise de dados, inclusive a partir de fontes digitais, para garantir que o processo de tomada de decisão seja inclusivo, transparente e orientado para resultados.

Como diria Amartya Sen, Prémio Nobel da Economia, “sem informação, não há escolha; sem escolha, não há liberdade”. Decidir com base em dados é, pois, um acto de justiça para com a juventude angolana. É recusar o abandono e afirmar um futuro melhor.

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