Nos últimos anos, várias tragédias nas estradas angolanas voltaram a expor — com nomes, datas e números chocantes — as fragilidades do transporte rodoviário no país. A mais recente ocorreu em 16 de Julho de 2025, quando um autocarro de passageiros bateu num camião na sinuosa Serra da Leba, fronteira natural entre Huíla e Namibe; o embate fez o veículo despencar encosta abaixo e provocou, segundo balanços oficiais revistos, entre 18 e 21 mortos e pelo menos 24 feridos graves. Apenas quatro dias depois, em 20 de Julho, outro camião sobrecarregado capotou sobre a ponte do rio Cutato, no município do Chinguar (Bié), levando à morte de 13 pessoas e deixando de doze a quinze feridos, de novo por falhas mecânicas e velocidade excessiva numa via sem proteção lateral.
O ano já dera sinal de alerta em 29 de Janeiro de 2025: durante a descida do Morro do Chingo, no Sumbe (Kwanza-Sul), um autocarro que fazia a rota Luanda–Lubango perdeu o controlo, saiu da estrada e virou-se numa ravina, ceifando 11 vidas e ferindo 33 ocupantes, oito em estado crítico. Retrocedendo um pouco, em 24 de maio de 2023, um mini-autocarro de serviço de táxi despistou-se na EN-230, no município do Ebo, também no Kwanza-Sul: 14 mortos e pelo menos 12 feridos foram registados, num troço conhecido pela má pavimentação e sinalização deficiente. E, num caso que continua a ser citado como o pior acidente de viação do futebol angolano, o despiste de um autocarro cheio de adeptos do Kabuscorp, em 5 de Agosto de 2012, matou 29 pessoas e feriu 25 na estrada que liga Luanda ao Kwanza-Sul.
O retrato em números
Nos últimos 15 anos, a sinistralidade rodoviária em Angola descreveu um gráfico de “montanha-russa”: partiu de níveis dramáticos entre 2010 e 2014, com perto de 3 700 mortos anuais, melhorou gradualmente de 2015 a 2019 graças a radares, inspecções e campanhas, e caiu abruptamente em 2020 devido aos confinamentos, mas o alívio das restrições fez disparar de novo os números.
Entre 2021 e 2023 o país regressou aos patamares pré-pandemia, atingindo em 2023 o pior registo da década (3 121 mortos, 17 902 feridos), e os dados preliminares de 2024 mostram estagnação nesse pico (3 120 mortos). No conjunto de 2014-2024, perderam-se 31 521 vidas e ficaram feridas 147 670 pessoas—média de nove óbitos por dia—, mantendo os acidentes como segunda causa de morte, atrás da malária.
O impacto pressiona um sistema de saúde já sobrecarregado: em épocas festivas, a traumatologia ocupa até 40 % dos leitos cirúrgicos, muitas unidades não têm ortopedistas nem banco de sangue 24 h, e a OMS estima que o custo absorva 3 % do PIB. Para lá dos números, ficam o empobrecimento de famílias, a perda de produtividade e as sequelas físicas e psicológicas que perpetuam a vulnerabilidade económica.
Custo social invisível
As estatísticas não contam o pai que deixa de sustentar a família, a jovem que abandona a escola por deficiência, nem a sobrecarga psicológica dos sobreviventes. A perda de produtividade e o empobrecimento dos lares perpetuam um ciclo de fragilidade económica (7).
Política pública: uma janela de oportunidade
Há sinais de viragem. O Plano Nacional de Prevenção e Segurança Rodoviária 2023-2027, aprovado pelo Decreto Presidencial 145/23, fixa metas de redução de 20 % nas mortes e 30 % nos feridos graves (6). Prevê:
Requalificar 5 000 km de estradas estratégicas;
Criar cinco centros regionais de trauma com helicóptero-ambulância;
Integrar bases de dados da Polícia Nacional, hospitais e seguradoras.
Mas o papel aceita tudo; sem financiamento protegido e fiscalização autónoma, o plano arrisca tornar-se mais um decreto esquecido.
O que falta fazer já no sector da saúde
A redução da elevada mortalidade no trânsito em Angola ― que ronda 26 óbitos por 100 000 habitantes, muito acima da média global ― exige que o setor da saúde atue de forma integrada em prevenção, resposta ao trauma e reabilitação. Antes de tudo, é preciso fortalecer a produção de evidências: um registo nacional de lesões que ligue boletins de ocorrência a prontuários hospitalares permitirá identificar onde, quando e porquê os acidentes acontecem e quem são as principais vítimas. Com esses dados em mãos, o Ministério da Saúde pode liderar ações de advocacia para que a polícia e os órgãos de trânsito apliquem com rigor as leis de capacete, cinto, álcool e velocidade, ao mesmo tempo em que implementa campanhas de educação viária em unidades básicas, escolas e meios de comunicação.
Paralelamente, o sistema de atenção ao trauma deve ser ampliado. A etapa pré-hospitalar carece de um número único nacional (112) funcional em todas as províncias, centrais de despacho equipadas e uma rede de ambulâncias dotadas do mínimo indispensável ― oxímetro, oxigénio, material de imobilização ― localizáveis por GPS. Para garantir que o socorro chegue a quem mais precisa, convém treinar em massa socorristas, enfermeiros, bombeiros e mesmo taxistas no curso gratuito “Basic Emergency Care”, concebido pela OMS para contextos de baixos recursos. No hospital, a organização em quatro Centros de Trauma regionais com tomografia 24 h, cirurgia geral, ortopedia e banco de sangue facilitaria intervenções rápidas como controlo de hemorragias ou fixação de fraturas longas; a adoção da “Trauma Checklist” da OMS ajuda a evitar omissões críticas. A tele-mentoria com parceiros internacionais pode suprir lacunas de especialistas no interior.
A terceira frente consiste em cuidar das consequências de longo prazo. Sobreviventes precisam de fisioterapia acessível perto de casa para prevenir incapacidades permanentes, além de apoio psicológico para lidar com stress pós-traumático. Um seguro obrigatório de responsabilidade civil, articulado com o Fundo Rodoviário, garantiria financiamento contínuo para órteses, próteses e terapias de reabilitação.
Tudo isso requer coordenação, recursos e metas claras. A criação de uma Unidade de Segurança Viária dentro do Ministério da Saúde ― capaz de dialogar com Transportes, Interior e Obras Públicas segundo o modelo “Safe System” ― permitiria alinhar esforços e medir resultados. Se ao menos 5 % do orçamento do Fundo Rodoviário fosse reservado para emergências médicas e trauma, haveria verba suficiente para equipar ambulâncias, formar pessoal e manter estoques de hemoderivados. Metas trimestrais — como tempo médio de resposta do socorro, mortalidade hospitalar em 24 e 7 dias, ou percentagem de vítimas atendidas por profissional treinado — dariam transparência e permitiriam correções de rumo. Somando vigilância rigorosa, resposta rápida e reabilitação digna, Angola pode salvar milhares de vidas e cumprir a meta global de cortar pela metade as mortes no trânsito até 2030.
O conteúdo Acidentes de viação em Angola: quando os números gritam e o sistema de saúde sente aparece primeiro em Correio da Kianda – Notícias de Angola.














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