É categórico que, por mais optimistas que sejamos, o país não regista momentos saudáveis, quer política e economicamente, pois têm uma relação circular que alicerça a sociedade. Mais do que reformular o governo, o modelo político tem de ser repensado.
Leviatã, é o título da obra que faz referência ao monstro bíblico, escrita por Thomas Hobbes, matemático e filósofo inglês do século XVII, abordou-o num período conturbado para os ingleses, tanto no campo cultural, quanto no religioso e político, similar ao que Angola vive, e precisamos analisar isto com algum realismo.
Segundo Hobbes, o homem nasce egoísta, e busca de satisfação de suas necessidades. Não é possível haver uma satisfação para todos ao mesmo nível, mas é importante buscar pontos de equilíbrio. Todas as sociedades têm classes altas, médias e baixas, mas é importante que, quem tem o leme do barco, consiga criar condições para a realização de cada um, ao seu nível, as pessoas querem os lugares dos outros por não serem valorizados, respeitados e incluídos na posição em que se encontram, o que é mau.
O que os angolanos querem não é impossível de realizar, emprego, habitação, salários condignos, saúde, educação, segurança, estradas de qualidade, ou seja, prosperidade. Enquanto os outros povos se manifestam e fazem greves por mais, os angolanos fazem-no por justiça social, por equidade, e, hoje, mais do que há uns anos, sabem que é possível a realização e materialização destas questões básicas. Estamos na era da Internet, Informação e do Conhecimento, e governar sem olhar para estes indicadores, é um autêntico perigo.
O país já mudou, a juventude já é outra, e quem governa tem acompanhar esta dinâmica
Algo caricato aconteceu, Angola chegou a ter aproximadamente 6 greves em simultâneo, e em sectores chaves, saúde, educação, justiça, ensino superior, transportes públicos e várias manifestações, onde até os jornalistas saíram às ruas para exigir maior liberdade de impressa e fim dos sucessivos assaltos, bem como as recorrentes perseguições. Tudo isto em 2022, num ano eleitoral, e pouco ou nada se fez. De lá para cá, que mudanças notáveis vislumbramos? É importante percebermos que Leviatã nos enferma, e se adianta mantê-lo a todo custo, quando na verdade o que cidadãos querem é possível de ser feito, é o mínimo que certas lideranças devem proporcionar.
Os cadernos reivindicativos, são em função do contexto, há em curso a recuperação de activos no país e no estrangeiro, há recuperação de capitais desviados, há nacionalizações e privatizações, há mais presença dos decisores das maiores potências em Angola, como nunca se viu antes, mas não se compreende como o cerco continua apertado. Muita gente querendo abandonar o barco, deixar o país, pois não vê uma solução nem a longo prazo, que, volvidos anos, resultado zero, e a condição de vida dos cidadãos vai se agravando mais. A culpa não pode morrer solteira, há se ver individuos que tragam soluções para estas situações que não orgulham a ninguém.
Mais do que solidarizar-se com a causa, é crucial perceber o que leva os cidadãos a todo momento, mostrar estar descontentes e entrar em greve, é porque alguma coisa não vai bem, e é visível, o custo de vida aumentou mais de 100%, as pessoas estão a fazer enormes sacrifícios para manter a sua subsistência, a comida, os transportes, ou seja, os bens e serviços estão com preços altos, o que carece de uma avaliação de como devemos contornar este episódio, e para que ela surta os efeitos pretendidos, os decisores devem estar preparados para ouvir os que sentem na pele, esta situação de asfixia, sentar e negociar, baixar a guarda, porque gerir pessoas hoje, é um desafio maior do que há 10 anos.
O Leviatã que perdura é este, gera medo aos decisores, de descer da sua posição, para falar com aquele que, não tem privilégio algum. É de suma relevância sairmos do alto algumas vezes, precisa-se evitar o adiar de um problema que se pode resolver, pois assim retira os argumentos de conspiração. A que custo manter-se-á este modelo? Os vídeos, as imagens de repressão, que vemos, e as reclamações dos sindicalistas, de que não estão a respeitar os seus direitos, os taxistas, são indicadores claros, da necessidade de revermos este Leviatã, que asfixia e gera convulsões sociais.
O Leviatã como Hobbes escreveu há 5 seculos, numa espécie de critica social, gerou uma reflexão profunda, e mitigou vários problemas, as lideranças se reviram e fizeram mudanças circunstanciais, e serve de lição para nós, este gigante tem de ser fiscalizado e controlado, e cada um tem esta missão para o desenvolvimento do país.
O nosso principal argumento é que, conforme o mundo muda, o Estado tem de se expandir e assumir novas responsabilidades, mas tem de compreender que a sociedade vai estar mais vigilante, há mais meios de controlo, há mais conhecimento sobre como as coisas deviam ser feitas, e ao invés da repressão, precisamos ir buscar o mínimo de convergência possível. O sacrifício que se impõe, não pode ser selectivo, uns apertem os cintos, para que outros vivam em fartura, a custa do bem comum.
O conteúdo Angola e o leviatã no contexto político e económico aparece primeiro em Correio da Kianda – Notícias de Angola.















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